Escrito por Jerry Professor de História
Diferentemente dos cristãos, eu, candomblecista, não penso que minha religião seja a solução para os problemas do mundo. Não porque ela seja inferior ao cristianismo ou a qualquer outra instituição religiosa. Definitivamente não o é. Diferente, mas não melhor ou pior.
Como um típico brasileiro, minha história pregressa é permeada pelo cristianismo. Nasci católico, pratiquei tal religião até o começo da adolescência, quando comecei a estudar a Bíblia com as testemunhas de Jeová. Além do saber cotidiano, hoje eu estudo a história do cristianismo, e isso só contribuiu para a solidificação de minha certeza de que as denominações cristãs não são melhores que quaisquer outras.
Hoje eu sou um candomblecista, num contexto difícil como é o brasileiro. Participo de uma religião discriminada e malignada pelos ignorantes em geral, e pelos cristãos em específico. Não visto, entretanto, a carapuça de "coitadinho". Sei que foi, de fato, um ato heróico a manutenção da cultura religiosa afro-brasileira em contexto tão adverso. Isto não significa, no entanto, que minha religião seja formada por "mocinhos".
Esforço-me, enquanto livre pensador e humanista, por não fechar meus olhos às arbitrariedades das religiões, o que inclui, evidentemente, aquela que comungo atualmente: o candomblé. Neste sentido, tenho, sim, minhas críticas a esta religião que amo, e que por isso mesmo faço dela um exame pormenorizado que aponte seus defeitos. Defeitos estes que são alvo de meu discernimento.
Dentre eles, o maior, aquele que mais me incomoda, diz respeito à rígida hierarquia predominante nos terreiros de candomblé. Não há um líder religioso ao qual todos os terreiros devam seguir. Em cada ilê, ou terreiro, o babalorixá (pai-de-santo) ou a ialorixá (mãe-de-santo), são reis e rainhas praticamente incontestes, e a tendência ao absolutismo religioso é algo muito forte e, infelizmente, na maioria dos casos, presente. Muitas vezes a vontade do chefe religioso ganha um status de decreto real, e aos filhos daquela casa resta apenas aceitar, ou buscar um outro terreiro, onde muito provavelmente o contexto não será tão diferente.
Abaixo do babalorixá ou da ialorixá, encontra-se o babaquequerê (pai-pequeno) e/ou iaquequerê (mãe-pequena), segunda pessoa em importância do templo. Em seguida vêm os ogãs e equedes, respectivamente homens e mulheres que não entram em transe com orixás, mas que zelam pela manutenção da ordem da casa. Abaixo vêm os ebômis (literalmente, "meu irmão mais velho"), pessoas que já completaram no mínimo sete anos de iniciadas. Em seguida, os iaôs, iniciados com menos de sete anos de obrigações religiosas. E, por fim, vêm os abiãs (literalmente "não nascido"), pessoas que freqüentam a casa de candomblé, mas ainda não foram iniciadas. Infelizmente é comum ver um ebômin tiranizando um iaô, que, por sua vez, irá tiranizar o abiã. E a coisa vem de cima.
Justamente por manter esse olhar crítico é que procurei uma casa de candomblé que valorize o ser humano, independentemente do seu tempo de iniciação. Na casa de meu babalorixá, o Ilê Axeloyá (Casa da força de Oyá Iansã), ogãs, equedes e ebômis são obrigados a trocar bênçãos com iaôs e abiãs. Sim, porque nas outras casas, o abiã ou o iaô pede a bênção a seu mais velho, que lhe abençoa em nome de seu orixá. Mas na casa de meu pai, para incentivar a humildade, depois de abençoar seu inferior hierárquico, a pessoa de alto posto na casa de candomblé também tem de pedir a bênção àquele que está abaixo dele. Tenho, entretanto, a clara noção de que minha casa é uma exceção, e não a regra.
Norbert Elias estudou a sociedade de corte na Europa absolutista. O etnógrafo francês Pierre Verger, também ele iniciado no culto aos orixás, teve a percepção de que o candomblé funciona com uma lógica equivalente. Ele relata no seu livro "Orixás" que minha bisavó de santo, Mãe Senhora, cujo nome iniciático era Oxum Muiwá, então sacerdotisa do Ilê Axé Opô Afonjá, casa tradicional aqui da Bahia, recebeu, em 1952, o título de "Iyanassô", conferido pelo Alafin Oyó, ou rei de Oyó, na Nigéria, África. Tal título é o mais alto grau a que pode chegar uma mulher no culto aos orixás na África. Qual foi a reação das pessoas do candomblé? Deveria ser de alegria porque o nosso culto praticado aqui no Brasil foi reconhecido pelo mais alto dignitário do culto entre os iorubas da África. Mas na sociedade de corte do candomblé, infelizmente, assim como ocorria na Europa absolutista, houve muito espaço para a simulação e a dissimulação. Vejamos o que Verger diz:
Citação:
Essa dignidade recebida da África por Senhora provocou, diga-se de passagem, comentários e rumores, os fuxicos que agitam e apaixonam as pessoas que pertencem a esse pequeno mundo cheio de tradição, onde as questões de etiqueta, de direitos, fundamentadas sobre o valor dos nascimentos espirituais, de primazias, de gradação nas formas elaboradas de saudações, de prosternações, de ajoelhamentos são observadas, discutidas e criticadas apaixonadamente; nesse mundo onde o beija-mão, as curvaturas, as deferentes inclinações de cabeça, as mãos ligeiramente balançadas em gestos abençoadores representam um papel tão minucioso e docilmente praticado como na corte do Rei Sol. Os terreiros de candomblé são os últimos lugares onde as regras do bom-tom reinam ainda soberanamente.
Percebam que há aqui dois problemas. Primeiro, os famosos "fuxicos de candomblé". A menos que haja uma testemunha de respaldo, simplesmente não se acredita. E o disse-que-me-disse, que a tudo aumenta ou diminui, conforme as conveniências. Meu babalorixá, Julio Braga, cujo nome iniciático é Oyá Tundê (Oyá Iansã voltou!), escreveu um livro intitulado "Fuxico de Candomblé", onde ele mostra que o fuxico em nossa religião é uma espada de dois gumes: se por um lado tem um papel importante na difusão das informações num credo onde a tradição é oral, por outro há o risco de deformação e maledicência.
Em segundo lugar, o exemplo abordado por Pierre Verger mostra a importância dos mínimos ritos sociais. Ai de mim, iaô que sou, se passar por um ebômin ou uma equede de cabeça empinada, ou olhá-lo olho no olho. Tenho de, na presença de tais, andar levemente agachado, e nunca deixar de pedir a bênção. Como um nobre francês de baixa estirpe deveria se comportar diante de um outro nobre cujo título fosse maior. Ai de mim, iaô, se ao passar diante de meu babalorixá ou da iaquequerê não fizer o dobale, ou seja, prostrar-me no chão, diante de sua pessoa, e pedir-lhe humildemente a bênção.
Eu não vejo problema nenhum em fazer o dobale. É o modo como um ioruba demonstra respeito para com os mais velhos. Mas isto se torna problemático quando o ato é mecanizado, ou então quando é praticado mediante o medo de ser repreendido na frente de todos. "Bato a cabeça" para meu pai porque com ele eu me sinto à vontade para fazê-lo. Tenho até prazer em fazê-lo, em demonstrar meu respeito por ele, como um ioruba o faria diante de alguém mais velho e mais sábio. Mas nem todos os que se prostram pensam como eu e, mais importante, nem todos a quem tal prostração é devida entendem o ato como o que ele realmente é, mas vêem nisso uma demonstração de uma suposta superioridade sobre o outro.
Há um ditado muito repetido no candomblé, e que aplico a mim mesmo: "Pelo santo se beijam as pedras!". Sim. Para que as energias que comandam minha existência sejam devidamente cultuadas; para que eu me mantenha suficientemente sintonizado com tais forças; para que eu compartilhe de uma visão de mundo onde o ser humano é deificado, em vez de decaído; eu tenho de suportar toda a rígida hierarquia da religião. Infelizmente as marcas da escravidão mostraram-se fortes na organização do culto aos orixás no Brasil. Afinal, foi na época em que havia senhores e escravos, na época em que havia quem gritava e quem obedecia sob ameaças, que o culto se adaptou à realidade brasileira. E muitos daqueles que eram escravos, que não eram ninguém segundo a ótica hegemônica (branca e cristã), acabaram eternizando tal mandonismo na religião. Como o empregado que, depois de ter sido xingado pelo patrão, desconta na mulher, muitos escravos, tornando-se sacerdotes e readquirindo a realeza perdida pela escravidão, acharam-se no direito de tiranizar seus filhos espirituais. Felizmente, entretanto, tem havido um movimento que luta, não pelo fim da hierarquia, mas, sobretudo pelo respeito a indivíduos, a seres humanos, independentemente de seu tempo de iniciação. E deste movimento faço parte.
“E comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado”.- Bernardo Soares
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MINHA INQUIETUDE:
Qdo li essa crítica, senti-me “parente” de inquietudes do professor de História Jerry (é seu nick no fórum). Comecei minha trajetória na Umbanda (fiquei uns 9 anos) e depois o candomblé, no qual estou há mais de dez anos. Contudo existem muitas inquietudes, por isso repito, muito que Jerry escreveu veio ao encontro de que penso e também critico; logo quero, aqui, opinar sobre alguns pontos que Jerry escreveu.
- minhas críticas a esta religião que amo, e que por isso mesmo faço dela um exame – Também amo por demais o candomblé, creio que por isso mesmo devemos ter um senso muito criterioso do que acontece nos bastidores
- à rígida hierarquia (...)Não há um líder religioso ao qual todos os terreiros devam seguir.(...) o babalorixá (pai-de-santo) ou a ialorixá (mãe-de-santo), são reis e rainhas (...) Muitas vezes a vontade do chefe religioso ganha um status de decreto real – Muitas vezes, as decisões poderiam ser discutidas e não decretadas, como Jerry assevera. Dentro de um abassá, há muitas pessoas que gostariam de participar mais ativamente das decisões, mas não há interesse nenhum da mãe ou do pai delegar poderes, ou ao menos ajudas nas decisões.
- Infelizmente é comum ver um ebômin tiranizando um iaô, que, por sua vez, irá tiranizar o abiã. - Isso é totalmente verdade... espírito de irmandade, onde?? Eu creio que o modelo vem de cima, se não há respeito pelos mais velhos de iniciação, os mais novos irão fazer o mesmo. É uma pena!!
- Na casa de meu babalorixá (...), ogãs, equedes e ebômis são obrigados a trocar bênçãos com iaôs e abiãs.- Fico alegre em dizer que em meu abaçá sempre aconteceu isso, pois a dirigente sempre nos ensinou que a benção não é para a pessoa em si, e sim para o inkise (orixá) da pessoa.
- E o disse-que-me-disse, que a tudo aumenta ou diminui, conforme as conveniências. – Esse é um dos itens que deixa mais degastada em relação à convivência de barracão, é uma falação de um e de outro e se quiser tirar tudo a limpo as pessoas tem a cara de pau de dizer “Não falei nada disso, você acha que ia falar isso de você??”
- (Dobale ou Adobá) quando o ato é mecanizado(...) ou praticado mediante o medo de ser repreendido na frente de todos. – Muito se fala em humildade, porém praticá-la, onde?? Lembro de minha fase católica, que ao rezar o Pai Nosso, era rezado mecanicamente. Fazer o adobá por fazer, não tem sentido. Percebam que não estou dizendo que não é para fazê-lo, mas sim senti-lo e respeitar a tradição.
- Infelizmente as marcas da escravidão mostraram-se fortes na organização do culto aos orixás no Brasil. Afinal, foi na época em que havia senhores e escravos, na época em que havia quem gritava e quem obedecia sob ameaças, que o culto se adaptou à realidade brasileira.- Não estamos nessa época, há que se fazer modernizações sem perder a essência; afinal, a organização de uma sociedade sempre está em profusa modernização. Não quero, aqui, levantar nenhuma bandeira de revolucionária candomblecista, todavia existem considerações que podem ser aplicadas sem que a tradição se perca.
- E deste movimento faço parte.- EU TAMBÉM!!

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