terça-feira, 19 de agosto de 2008

O QUE SIGNIFICA A PESSOA SER UM PAI OU MÃE DE SANTO
fevereiro 27, 2008 in Nação Ketu

Se você é um Babalorixá “Pai de Santo” ou a Yalorixá “Mãe de Santo” se torna necessário seguir certas regras básicas para tal.

Um mestre religioso deve ser, primeiramente, humilde. Independente de ser este mestre uma pessoa com grandes conhecimentos religiosos de sua nação de Orixás,ou ainda das diversas nações de Orixás; como sábio, saberá o momento exato de demonstrar o seu saber religioso, sem a necessidade de humilhar ou maltratar – com palavras e atos – o seu interlocutor ou as pessoas que o cercam. Da mesma forma, se este mestre for uma pessoa abastada e afortunada em sua vida material, desnecessário se fará demonstrar suas riquezas e sua felicidade. As pessoas, por si só, já enxergam. A humildade da não-demonstração da sua materialidade, visível a olho nu, faz do mestre religioso um modelo a ser seguido por seus adeptos.
Um mestre religioso deve ter acima de tudo um grande conhecimento dos fundamentos da sua Nação de Orixás, e a vontade de querer repassá-los aos seus seguidores, sem o trauma destes – futuramente – obterem mais conhecimentos que seu próprio mestre. Deve ter igualmente, este mestre, a consciência de que não esta enganando a si próprio com o fato de não ter todos complementos necessários e exigidos para se poder; efetivamente, ter a condição de Babalorixá “Pai de Santo” ou a Yalorixá “Mãe de Santo” com a finalidade de ministrar os conhecimentos adquiridos. Se você, que é mestre, não tem todas as obrigações exigidas para tal, como poderá transmitir os verdadeiros fundamentos, se para si próprio não observou?
ESCOLHA DO BABALORIXÁ OU YALORIXÁ ( Pai ou Mãe de Santo)
A responsabilidade da escolha certa de um Pai ou Mãe de Santo, é toda da pessoa que será iniciada na Religião,a mesma devera sempre verificar nos diversos “Ilês” Templos Religiosos daquela Nação de Orixás, o modo de conduzir, a maneira de tratar e o carinho dedicado aos filhos de religião. Deverá dar uma atenção especial para o nível de conhecimento religioso e, se o mesmo, transmite aos iniciados do templo os ensinamentos e fundamentos de sua Nação de Orixás.
O Babalorixá “Pai de Santo” ou a Yalorixá “Mãe de Santo” será o conselheiro de vida, procurando resolver todas as suas duvidas, os seus problemas de ordem espiritual e até material da pessoa iniciada à Religião dos Orixás.
A autoridade do Babalorixá “Pai de Santo” ou a Yalorixá “Mãe de Santo”, para com o iniciado e sua vida, começa no momento em que é feita a primeira obrigação.
A partir do momento em que a confiança e o carinho entre o mestre e o iniciado terminar, o iniciado deverá procurar um novo Babalorixá “Pai de Santo” ou a Yalorixá “Mãe de Santo” de sua confiança e então fazer as devidas obrigações e dar continuidade a sua vida religiosa neste outro templo “Ilê” escolhido. Aconselhamos no caso de troca de Babalorixá “Pai de Santo” ou a Yalorixá “Mãe de Santo” que o iniciado conserve a mesma Nação onde foi iniciado ou feito.
Texto extraído do livro Os Fundamentos Religiosos da Nação Cabinda por Paulo Tadeu B.Ferreira.

MINHAS INQUIETUDES...

Um mestre religioso deve ser, primeiramente, humilde. - Quanto mais conheço os dirigentes espirituais do Candomblé mais me pergunto: Onde está essa humildade??!! Vejo um querendo ser mais que o outro, Vejo interesse financeiro. Vejo interesse pelo poder de manipular seus filhos-de-santo. Vejo roupas bonitas e caras em suas festas. E isso me deixa muito pensativa: será que o orixá quer isso? Claro que não!! Orixá não é isso!!! Não foi isso que aprendi com uma entidade espiritual, a qual devo muito de minha formação.


Independente de ser este mestre uma pessoa com grandes conhecimentos religiosos de sua nação de Orixás,ou ainda das diversas nações de Orixás; como sábio, saberá o momento exato de demonstrar o seu saber religioso, sem a necessidade de humilhar ou maltratar – com palavras e atos – o seu interlocutor ou as pessoas que o cercam. – Só que não é isso que acontece, vejo filhos-de-santo serem chamados a atenção aos gritos pelos seus zeladores. Vejo o interesse de um filho-de-santo não ser satisfeito, porque dizem “não é a horas de vc saber disso...” Se há uma pergunta, obviamente deve haver uma resposta satisfatória, não é preciso passar todos os fundamentos, mas uma resposta satisfatória pode ser dada de maneira a acalmar a curiosidade do filho.



Um mestre religioso deve ter acima de tudo um grande conhecimento dos fundamentos da sua Nação de Orixás, e a vontade de querer repassá-los aos seus seguidores, sem o trauma destes – futuramente – obterem mais conhecimentos que seu próprio mestre. – Realmente, será que vantajoso um zelador passar a seus filhos o conhecimento que ele possui(?), porque ele perderá o poder sobre seus filhos? Sim, porque o zelador deveria ser um modelo a ser seguido, mas não é isso que vejo. Vejo apenas autocracia, pura autocracia!!

A responsabilidade da escolha certa de um Pai ou Mãe de Santo, é toda da pessoa que será iniciada na Religião, a mesma devera sempre verificar nos diversos “Ilês” Templos Religiosos daquela Nação de Orixás, o modo de conduzir, a maneira de tratar e o carinho dedicado aos filhos de religião. – Mesmo verificando, analisando e crendo que escolheu certo, ainda sim,infelizmente, erramos...

O Babalorixá “Pai de Santo” ou a Yalorixá “Mãe de Santo” será o conselheiro de vida, procurando resolver todas as suas dúvidas – as minhas sempre foram sanadas pela metade...

A partir do momento em que a confiança e o carinho entre o mestre e o iniciado terminar, o iniciado deverá procurar um novo Babalorixá “Pai de Santo” ou a Yalorixá “Mãe de Santo” de sua confiança e então fazer as devidas obrigações e dar continuidade a sua vida religiosa neste outro templo “Ilê” escolhido. – Tenho muita tristeza, quando concordo com essa passagem desse texto, pois não deveria ser assim, cremos que achamos a pessoa e o templo certos, depois descobrimos que estávamos enganados, que eles não cobriram as nossas expectativas...


Aconselhamos no caso de troca de Babalorixá “Pai de Santo” ou a Yalorixá “Mãe de Santo” que o iniciado conserve a mesma Nação onde foi iniciado ou feito. – É...se procuramos um médico e ele não resolve o nosso problema, que fazemos?? Mudamos de médico...

OBS: Se alguém achar esse livro: Os Fundamentos Religiosos da Nação Cabinda por Paulo Tadeu B.Ferreira, poderia me indicar onde comprá-lo. Porque só achei dois textos dele na net.


quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Piada "Filho de Santo"

FILHO DE SANTO AVESTRUZ: Na hora do vamos ver, sempre se esconde.
FILHO DE SANTO JIBÓIA: Só vai nas festas para se empanturrar.
FILHO DE SANTO PITBULL: Não deixa ninguém se aproximar do Pai de Santo.
FILHO DE SANTO PEQUINÊS: Está sempre lambendo o Pai de Santo.
FILHO DE SANTO GATO: Dá o Tapa e esconde a mão.
FILHO DE SANTO BICHO PREGUIÇA: No Serão, Cadê ele???
FILHO DE SANTO MACACO: Nunca pára nas Casas.
FILHO DE SANTO HIENA: Não sabe do que, mas está sempre rindo.
FILHO DE SANTO CAVALO: Cuidado, Não chegue muito perto.
FILHO DE SANTO CONDOR: Está sempre gemendo nos cantos.
FILHO DE SANTO ANTIVIRUS: Vive vasculhando a sua vida de santo pra ver se acha algum podre.
FILHO DE SANTO EMAIL: Todo dia tem algo a dizer, mas 90% é lixo.
FILHO DE SANTO NO-BREAK: Quando você precisa ele até te dá uma força, mas só por 10 minutos.
FILHO DE SANTO APPLE MACINTOSH: A mãe de santo de uma equede tem e diz que é o filho de santo perfeito, será?
FILHO DE SANTO 286: Tem pouca memória. Nunca se lembra de seu aniversário, de algo que prometeu, obrigações da casa, etc.
FILHO DE SANTO MSX: Tem cerca de 20 anos, o boot é rapidinho, mas não faz nem o básico, só serve pra xirês rápidos e segurar galinhas antes das matanças.
FILHO DE SANTO HISTORY DO EXPLORER: Anota tudo que você fez e por onde você andou, pra jogar na sua cara um dia ou deixar todo mundo sabendo.
FILHO DE SANTO IMPRESSORA EM REDE: Você pensa que ele é só seu filho, mas volta e meia você encontra outra pessoa usando...
FILHO DE SANTO IMPRESSORA MATRICIAL: Faz mais barulho do que serviço.
FILHO DE SANTO SCANNER: No primeiro encontro pra você jogar pra ele, te olha de cima a baixo.
FILHO DE SANTO TRASHCAN: Adora guardar tranqueira dentro dos quartos de santo e você é que tem que ficar jogando o lixo fora constantemente.
FILHO DE SANTO HELP DO WINDOWS: Nunca responde às suas perguntas, quando responde não é o que você queria ouvir. Isso quando não responde com outra pergunta.
FILHO DE SANTO NEXT: Dizem ser o verdadeiro filho de santo perfeito, mas ninguém nunca viu um na vida, provavelmente não existe.
FILHO DE SANTO PROVEDOR: Está sempre ocupado demais para te ajudar.
FILHO DE SANTO WINDOWS: Todo mundo sabe que não presta, mas ninguém vive sem ele.
FILHO DE SANTO EXCEL: Dizem que faz muitas coisas, mas você só o utiliza para as quatro operações básicas.
FILHO DE SANTO WORD: - Tem sempre uma surpresa reservada pra você (geralmente ruim) e não existe ninguém no mundo que o compreenda totalmente. - Corresponde a mais ou menos 99% dos filhos de santo do mundo.
FILHO DE SANTO BACKUP:- Sempre você acha que tem, mas na hora o "vamos ver" não funciona.
FILHO DE SANTO VIRUS: - Também conhecido como descompreendido abusado, quando você menos espera ele chega e se instala. Se você tentar desinstalar vai perder alguma coisa, se não tentar perde tudo.
FILHO DE SANTO SCANDISK: - A gente sabe que ele é legal e só quer ajudar, mas por debaixo dos panos a gente nunca sabe o que ele está fazendo.
FILHO DE SANTO PAPEL DE PAREDE: - Não serve para nada, mas enche a roda do xirê. FILHO DE SANTO MOUSE: - Só funciona quando é arrastado e apertado.
Autor: Desconhecido

O que acontece quando as pessoas descobrem que eu sou de Candomblé

março 5, 2008 in Nação Ketu



- 100% das pessoas acham que eu recebo santo.
- 87% das pessoas dizem que são católicos/evangélicos/budistas/ etc , mas morrem de medo de macumba e perguntam o que podem fazer pra evitar ser atingidos. Mas quando a coisa fica preta recorrem ao candomblé e a umbanda.Os adeptos do candomblé acreditam que o mal só atinge quem faz o mal. Então, se você é uma boa pessoa, não precisa ter medo. Mesmo.

- 73% das pessoas me pede conselhos , acham que sou Pai de santo e pendem para ir no terreiro que eu frequento.Por favor, vá com respeito e nem pense em tirar foto. As festas são cultos religiosos, não atrações turísticas.

- 69% das pessoas perguntam “qual o meu orixá?”. Um Orixá é como um anjo da guarda que está sempre perto de você pra te ajudar, não alguém que controla suas ações.

- 55% das pessoas contam que uma cigana/hippie/benzedeira/parteira disse que o orixá dela era Yansã (é impressionante como o povo gosta de Yansã).Procure os búzios primeiro.

- 43% das pessoas pedem o telefone da minha mãe-de-santo porque PRECISAM de uma consulta.Essa é uma das coisas que mais me ofendem, pessoalmente, porque mostram como o Candomblé é visto. Todo mundo é católico, mas, quando o bicho pega, corre todo mundo pro terreiro. Não sou contra isso pelo contrário. O que me desagrada é ver a o Candomblé tratado como uma espécie de sub-religião ou uma tenda dos milagres. Ou uma religião de soluções imediatas. Não percebem que agindo assim, dão margem para os falsos Pais e Mães de Santos.- 30% das pessoas fala das lendas que conhece e pede pra você contar mais.

- 21% das pessoas dizem que eu estou adorando o demônio e que vou arder no fogo do inferno.Felizmente, na minha religião não existe demônio. Nem inferno.

- 15% das pessoas me censuram por sacrificar animais.O sacrifício de animais no candomblé é bem parecido com o que qualquer carnívoro pratica. O bicho é morto, transformado numa comida gostosa e servido nas festas para ser comido por todos os presentes numa espécie de comunhão. Algumas vezes, a comida gostosa tem que ser deixada no mato e qualquer bicho pode comer (se não for comido, o Orixá não aceitou). Para quem tem curiosidade em saber, toda vez que um animal precisa ser sacrificado pra virar comida gostosa, um ogã/equede especial que tem que conversar com ele, explicar seu destino e rezar com ele. Pois é, meu povo, não é assassinato sanguinário de bichinhos, é uma prática religiosa realizada com um extremo respeito.

- 2% das pessoas percebem que é minha religião, não uma curiosidade exótica, e me trata com respeito. (desconheço o autor)


OBSERVAÇÃO
Esse texto traduz uma realidade que acredito que todos filho-de-santo passam ou passaram em algum momento de sua vida no candomblé com pessoas leigas!
É um texto bem humorado, contudo é bem real.

Um candomblecista critica sua religião

Escrito por Jerry Professor de História

Diferentemente dos cristãos, eu, candomblecista, não penso que minha religião seja a solução para os problemas do mundo. Não porque ela seja inferior ao cristianismo ou a qualquer outra instituição religiosa. Definitivamente não o é. Diferente, mas não melhor ou pior.

Como um típico brasileiro, minha história pregressa é permeada pelo cristianismo. Nasci católico, pratiquei tal religião até o começo da adolescência, quando comecei a estudar a Bíblia com as testemunhas de Jeová. Além do saber cotidiano, hoje eu estudo a história do cristianismo, e isso só contribuiu para a solidificação de minha certeza de que as denominações cristãs não são melhores que quaisquer outras.

Hoje eu sou um candomblecista, num contexto difícil como é o brasileiro. Participo de uma religião discriminada e malignada pelos ignorantes em geral, e pelos cristãos em específico. Não visto, entretanto, a carapuça de "coitadinho". Sei que foi, de fato, um ato heróico a manutenção da cultura religiosa afro-brasileira em contexto tão adverso. Isto não significa, no entanto, que minha religião seja formada por "mocinhos".

Esforço-me, enquanto livre pensador e humanista, por não fechar meus olhos às arbitrariedades das religiões, o que inclui, evidentemente, aquela que comungo atualmente: o candomblé. Neste sentido, tenho, sim, minhas críticas a esta religião que amo, e que por isso mesmo faço dela um exame pormenorizado que aponte seus defeitos. Defeitos estes que são alvo de meu discernimento.

Dentre eles, o maior, aquele que mais me incomoda, diz respeito à rígida hierarquia predominante nos terreiros de candomblé. Não há um líder religioso ao qual todos os terreiros devam seguir. Em cada ilê, ou terreiro, o babalorixá (pai-de-santo) ou a ialorixá (mãe-de-santo), são reis e rainhas praticamente incontestes, e a tendência ao absolutismo religioso é algo muito forte e, infelizmente, na maioria dos casos, presente. Muitas vezes a vontade do chefe religioso ganha um status de decreto real, e aos filhos daquela casa resta apenas aceitar, ou buscar um outro terreiro, onde muito provavelmente o contexto não será tão diferente.

Abaixo do babalorixá ou da ialorixá, encontra-se o babaquequerê (pai-pequeno) e/ou iaquequerê (mãe-pequena), segunda pessoa em importância do templo. Em seguida vêm os ogãs e equedes, respectivamente homens e mulheres que não entram em transe com orixás, mas que zelam pela manutenção da ordem da casa. Abaixo vêm os ebômis (literalmente, "meu irmão mais velho"), pessoas que já completaram no mínimo sete anos de iniciadas. Em seguida, os iaôs, iniciados com menos de sete anos de obrigações religiosas. E, por fim, vêm os abiãs (literalmente "não nascido"), pessoas que freqüentam a casa de candomblé, mas ainda não foram iniciadas. Infelizmente é comum ver um ebômin tiranizando um iaô, que, por sua vez, irá tiranizar o abiã. E a coisa vem de cima.

Justamente por manter esse olhar crítico é que procurei uma casa de candomblé que valorize o ser humano, independentemente do seu tempo de iniciação. Na casa de meu babalorixá, o Ilê Axeloyá (Casa da força de Oyá Iansã), ogãs, equedes e ebômis são obrigados a trocar bênçãos com iaôs e abiãs. Sim, porque nas outras casas, o abiã ou o iaô pede a bênção a seu mais velho, que lhe abençoa em nome de seu orixá. Mas na casa de meu pai, para incentivar a humildade, depois de abençoar seu inferior hierárquico, a pessoa de alto posto na casa de candomblé também tem de pedir a bênção àquele que está abaixo dele. Tenho, entretanto, a clara noção de que minha casa é uma exceção, e não a regra.

Norbert Elias estudou a sociedade de corte na Europa absolutista. O etnógrafo francês Pierre Verger, também ele iniciado no culto aos orixás, teve a percepção de que o candomblé funciona com uma lógica equivalente. Ele relata no seu livro "Orixás" que minha bisavó de santo, Mãe Senhora, cujo nome iniciático era Oxum Muiwá, então sacerdotisa do Ilê Axé Opô Afonjá, casa tradicional aqui da Bahia, recebeu, em 1952, o título de "Iyanassô", conferido pelo Alafin Oyó, ou rei de Oyó, na Nigéria, África. Tal título é o mais alto grau a que pode chegar uma mulher no culto aos orixás na África. Qual foi a reação das pessoas do candomblé? Deveria ser de alegria porque o nosso culto praticado aqui no Brasil foi reconhecido pelo mais alto dignitário do culto entre os iorubas da África. Mas na sociedade de corte do candomblé, infelizmente, assim como ocorria na Europa absolutista, houve muito espaço para a simulação e a dissimulação. Vejamos o que Verger diz:

Citação:
Essa dignidade recebida da África por Senhora provocou, diga-se de passagem, comentários e rumores, os fuxicos que agitam e apaixonam as pessoas que pertencem a esse pequeno mundo cheio de tradição, onde as questões de etiqueta, de direitos, fundamentadas sobre o valor dos nascimentos espirituais, de primazias, de gradação nas formas elaboradas de saudações, de prosternações, de ajoelhamentos são observadas, discutidas e criticadas apaixonadamente; nesse mundo onde o beija-mão, as curvaturas, as deferentes inclinações de cabeça, as mãos ligeiramente balançadas em gestos abençoadores representam um papel tão minucioso e docilmente praticado como na corte do Rei Sol. Os terreiros de candomblé são os últimos lugares onde as regras do bom-tom reinam ainda soberanamente.

Percebam que há aqui dois problemas. Primeiro, os famosos "fuxicos de candomblé". A menos que haja uma testemunha de respaldo, simplesmente não se acredita. E o disse-que-me-disse, que a tudo aumenta ou diminui, conforme as conveniências. Meu babalorixá, Julio Braga, cujo nome iniciático é Oyá Tundê (Oyá Iansã voltou!), escreveu um livro intitulado "Fuxico de Candomblé", onde ele mostra que o fuxico em nossa religião é uma espada de dois gumes: se por um lado tem um papel importante na difusão das informações num credo onde a tradição é oral, por outro há o risco de deformação e maledicência.

Em segundo lugar, o exemplo abordado por Pierre Verger mostra a importância dos mínimos ritos sociais. Ai de mim, iaô que sou, se passar por um ebômin ou uma equede de cabeça empinada, ou olhá-lo olho no olho. Tenho de, na presença de tais, andar levemente agachado, e nunca deixar de pedir a bênção. Como um nobre francês de baixa estirpe deveria se comportar diante de um outro nobre cujo título fosse maior. Ai de mim, iaô, se ao passar diante de meu babalorixá ou da iaquequerê não fizer o dobale, ou seja, prostrar-me no chão, diante de sua pessoa, e pedir-lhe humildemente a bênção.

Eu não vejo problema nenhum em fazer o dobale. É o modo como um ioruba demonstra respeito para com os mais velhos. Mas isto se torna problemático quando o ato é mecanizado, ou então quando é praticado mediante o medo de ser repreendido na frente de todos. "Bato a cabeça" para meu pai porque com ele eu me sinto à vontade para fazê-lo. Tenho até prazer em fazê-lo, em demonstrar meu respeito por ele, como um ioruba o faria diante de alguém mais velho e mais sábio. Mas nem todos os que se prostram pensam como eu e, mais importante, nem todos a quem tal prostração é devida entendem o ato como o que ele realmente é, mas vêem nisso uma demonstração de uma suposta superioridade sobre o outro.

Há um ditado muito repetido no candomblé, e que aplico a mim mesmo: "Pelo santo se beijam as pedras!". Sim. Para que as energias que comandam minha existência sejam devidamente cultuadas; para que eu me mantenha suficientemente sintonizado com tais forças; para que eu compartilhe de uma visão de mundo onde o ser humano é deificado, em vez de decaído; eu tenho de suportar toda a rígida hierarquia da religião. Infelizmente as marcas da escravidão mostraram-se fortes na organização do culto aos orixás no Brasil. Afinal, foi na época em que havia senhores e escravos, na época em que havia quem gritava e quem obedecia sob ameaças, que o culto se adaptou à realidade brasileira. E muitos daqueles que eram escravos, que não eram ninguém segundo a ótica hegemônica (branca e cristã), acabaram eternizando tal mandonismo na religião. Como o empregado que, depois de ter sido xingado pelo patrão, desconta na mulher, muitos escravos, tornando-se sacerdotes e readquirindo a realeza perdida pela escravidão, acharam-se no direito de tiranizar seus filhos espirituais. Felizmente, entretanto, tem havido um movimento que luta, não pelo fim da hierarquia, mas, sobretudo pelo respeito a indivíduos, a seres humanos, independentemente de seu tempo de iniciação. E deste movimento faço parte.

“E comecei, a sós comigo, a fazer barcos de papel com a mentira que me haviam dado”.- Bernardo Soares
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MINHA INQUIETUDE:

Qdo li essa crítica, senti-me “parente” de inquietudes do professor de História Jerry (é seu nick no fórum). Comecei minha trajetória na Umbanda (fiquei uns 9 anos) e depois o candomblé, no qual estou há mais de dez anos. Contudo existem muitas inquietudes, por isso repito, muito que Jerry escreveu veio ao encontro de que penso e também critico; logo quero, aqui, opinar sobre alguns pontos que Jerry escreveu.

  1. minhas críticas a esta religião que amo, e que por isso mesmo faço dela um exame – Também amo por demais o candomblé, creio que por isso mesmo devemos ter um senso muito criterioso do que acontece nos bastidores
  2. à rígida hierarquia (...)Não há um líder religioso ao qual todos os terreiros devam seguir.(...) o babalorixá (pai-de-santo) ou a ialorixá (mãe-de-santo), são reis e rainhas (...) Muitas vezes a vontade do chefe religioso ganha um status de decreto real – Muitas vezes, as decisões poderiam ser discutidas e não decretadas, como Jerry assevera. Dentro de um abassá, há muitas pessoas que gostariam de participar mais ativamente das decisões, mas não há interesse nenhum da mãe ou do pai delegar poderes, ou ao menos ajudas nas decisões.
  3. Infelizmente é comum ver um ebômin tiranizando um iaô, que, por sua vez, irá tiranizar o abiã. - Isso é totalmente verdade... espírito de irmandade, onde?? Eu creio que o modelo vem de cima, se não há respeito pelos mais velhos de iniciação, os mais novos irão fazer o mesmo. É uma pena!!
  4. Na casa de meu babalorixá (...), ogãs, equedes e ebômis são obrigados a trocar bênçãos com iaôs e abiãs.- Fico alegre em dizer que em meu abaçá sempre aconteceu isso, pois a dirigente sempre nos ensinou que a benção não é para a pessoa em si, e sim para o inkise (orixá) da pessoa.
  5. E o disse-que-me-disse, que a tudo aumenta ou diminui, conforme as conveniências. – Esse é um dos itens que deixa mais degastada em relação à convivência de barracão, é uma falação de um e de outro e se quiser tirar tudo a limpo as pessoas tem a cara de pau de dizer “Não falei nada disso, você acha que ia falar isso de você??”
  6. (Dobale ou Adobá) quando o ato é mecanizado(...) ou praticado mediante o medo de ser repreendido na frente de todos. – Muito se fala em humildade, porém praticá-la, onde?? Lembro de minha fase católica, que ao rezar o Pai Nosso, era rezado mecanicamente. Fazer o adobá por fazer, não tem sentido. Percebam que não estou dizendo que não é para fazê-lo, mas sim senti-lo e respeitar a tradição.
  7. Infelizmente as marcas da escravidão mostraram-se fortes na organização do culto aos orixás no Brasil. Afinal, foi na época em que havia senhores e escravos, na época em que havia quem gritava e quem obedecia sob ameaças, que o culto se adaptou à realidade brasileira.- Não estamos nessa época, há que se fazer modernizações sem perder a essência; afinal, a organização de uma sociedade sempre está em profusa modernização. Não quero, aqui, levantar nenhuma bandeira de revolucionária candomblecista, todavia existem considerações que podem ser aplicadas sem que a tradição se perca.
  8. E deste movimento faço parte.- EU TAMBÉM!!